terça-feira, 13 de outubro de 2026

Porta de Aramenha

 



"Restos, que já contemporaneos fostes
De nossos bons e simplices maiores,
Gosta meu coração de interrogar·vos.
E gosta de vos crer. De novo a historia
Estudo em vós dos tempos e dos povos.
Quanto esses povos mais famosos foram,
E quanto mais famosos esses tempos,
Tanto mais n'esses restos fico absorto."


Dellile - 'Os Jardins'

 

Como em 1874 se escrevia sobre Arqueologia e História 

 

"Porta de Aramenha se ficou chamando a antiga porta do carro de Castello de Vide, depois que n'elle se collocou um magnifico portico de cantaria lavrada, trazido de Aramenha, da quinta da Azenha Branca. Sobre este portico acha-se a inscripção seguinte:

 «Reinando em Portugal o muito alto e poderoso Senhor D. João V, foi este portado tirado debaixo das antigas ruinas da cidade de Medobriga, fundada em 1906 annos antes de Christo, no sitio chamado Aramenha, transferido e posto n'este logar por Manuel de Azevedo Fortes, governador d'esta praça, no anno de Christo 1710."

Explica e corrobora esta inscripção o documento, que vamos transcrever ao proprio original e que temos presente:

«Manuel de Azevedo Fortes, cavalleiro professo da ordem de Christo, coronel de infanteria do partido da côrte, e governador da praça de Castello de Vide por Sua Magestade que Deus Guarde. Certifico que, encarregando-me Sua Magestade, que Deus guarde, a reedificação d'esta praça, que os inimigos deixaram demolida, e sendo necessario fazer-se uma nova porta na cortina de S. Francisco, por estar de todo incapaz a que chamavam do carro, me vali de um portado de cantaria grossa, e fortissimo, que ficou inteiro entre as ruinas da antiga cidade de Medobriga, aonde chamam Aramenha, uma legua d'esta villa. e estava servindo de pórtico e entrada a uma quinta que n'aquelle sitio tem Luiz Freire da Fonseca Coutinho, o qual sabendo o meu intento, e que desejava servir-me do dito portado para a fortificação d'esta praça, querendo-lh'o comprar, o ofereceu gratuitamenle para o serviço de Sua Magestade, sacrificando a este fim o gosto que tinha em conservar na sua quinta aquella antiguidade e memoria, pois foi fundada a dita cidade, segundo os historiadores, mil novecentos e seis annos antes da vinda de Christo. E com effeito mandei conduzir o dito portado para esta praça, para se collocar na nova porta de Aramenha, e com elle se poupou á fazenda real, só no arranco e lavor das pedras, se houvessem de manda-l'o fazer, mais de duzentos mil réis. Passa o referido na verdade pelo juramento dos Santos Evangelhos, de qne mandei passar o presente por mim assignado. Castello de Vide, 15 de novembro de 1710. = Manuel de Azevedo Fortes. (Tem o sêllo das armas, de que usava) (1)."

Manuel de Azevedo Fortes, para o dizermos de passagem, falleceu a 28 de março de 1749, sendo engenheiro-mór do reino, depois de haver enriquecido a sciencia da sua profissão de obras preciosas para o seu tempo, e reputadas ainda hoje classicas (2).

(1) - Fez a mercê de me communicar este documento, que conserva no archivo de sua casa, o sr. Alvaro da Fonseca Coutinho, bisneto do doador de que n'elle se trata.
(2) Vide Diccionario Bibliographico Portuguez, pelo sr. Francisco da Silva. "

Arqueologia e História (1874) - série 2, tomo I, boletim 2 

 

 Cidade romana de Ammaia - local original do arco

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

1385 - Senhorio da Portagem (Marvão)

 

Torre da Portagem

  

Doação de D. João I, Mestre de Avis, feita a Dona Iria Gonçalves, mãe do Condestável D. Nuno Álvares Pereira, pelos muitos serviços prestados pelos seus filhos, para sempre, para ela e seus descendentes, da Portagem de Marvão, com todas as suas rendas e pertenças.  

 

 

Chancelarias de D. João I, Livro 1, folha 97v.


Ponte da Portagem (vendo-se parte da torre ao fundo)

A doação da portagem de Marvão a D. Iria Gonçalves foi um ato de mercê outorgado pelo rei D. João I no verão de 1385, inserido no contexto da Crise de 1383–1385 e da consolidação da nova Dinastia de Avis.

D. Iria Gonçalves do Carvalhal era mãe de D. Nuno Álvares Pereira (o Condestável de Portugal). Como recompensa pelos valiosos serviços prestados pelos seus filhos à causa do Mestre de Avis na guerra contra Castela, D. João I concedeu-lhe esta importante fonte de rendimento.

A portagem de Marvão (localizada na atual povoação de Portagem, junto ao rio Sever) era um ponto aduaneiro estratégico e altamente lucrativo na fronteira com Castela. A recolha de impostos sobre a passagem de mercadorias e pessoas naquele local constituía uma das formas mais eficazes que o rei tinha para galardoar a alta nobreza que o apoiava militarmente.


Casa de Pereira

 

domingo, 5 de julho de 2026

Estranhas ligações

 

Inscrição funerária de Caius Iulius Terentianus, Iulia Maxuma e Terencia de Ammaia

 Inscrição funerária de três indivíduos, que, pelos nomes, não parecem ter uma relação familiar direta (embora não seja de excluir a existência de laços matrimoniais). "(Consagrado) aos deuses manes de Caio Júlio Terenciano, filho de Caio, de 32 anos, inscrito na tribo Galéria e de Júlia Máxima, filha de Sexto, de 20 anos e de Terência, filha de Lúcio natural da Ammaia".


A onomástica é tipicamente latina, sobretudo na forma de identificação dos indivíduos, refletindo uma profunda romanidade e adesão à tradição latina. Todos os nomes são frequentes na Península Ibérica, em particular na área geográfica de Felicitas Iulia Olisipo, destacando-se o nomen Iulius e os cognomina Terentianus/ -a e Maxuma (ambos indígenas), todos eles comuns, sobretudo na zona oeste do município olisiponense. O cognomen Ammaia, por seu lado, parece ser habitualmente utilizado como nomen e associado a cognomina hispânicos.


A inscrição utiliza puncti distinguenti (triangulares de vértice apontado para o lado direito e vírgulas) a separar todas as palavras. As letras são de tipo Capital quadrada, ainda que os "V" sejam gravados com uma das hastes a 45 graus e outra completamente vertical. Pela onomástica, a fórmula de consagração aos deuses manes, a utilização do dativo e a indicação da idade, poderá datar-se esta inscrição de meados ou finais do século II d.C..

Leitura:

 DIS MANIBVS / C(aii) · IVLI · C(aii) · F(ilii) · GAL(eria tribu) . TERENTIA / NI · ANNO(rum) XXXII (duo et triginta) · ET / IVLIAE SEX(ti) · F(iliae) · MAXUM¯AE AN(norum) (triângulo) XX (viginti) / ET · TERENTIAE · L(ucii) · F(iliae) · AMM¯AIIAE

Tradução:

 (Consagrado) aos deuses manes de Caio Júlio Terenciano, filho de Caio, de 32 anos, inscrito na tribo Galéria e de Júlia Máxima, filha de Sexto, de 20 anos e de Terência, filha de Lúcio, natural da Ammaia.

 *

Isto nada teria de misterioso se a lápide tivesse sido descoberta na cidade romana de Ammaia localizada em São Salvador de Aramenha, Marvão, distrito de Portalegre. Mas... 

...por estranho que pareça surge como tampa de monumento funerário encontrada em data incerta no século XVII, enterrada na mata entre Paço d'Ilhas e a Quinta dos Chãos, tendo sido depois incorporada no altar do Divino Espírito Santo na igreja matriz de Santo Isidoro (Ericeira).

Em 1861, é pela primeira vez referida a sua utilização como tampa de mesa dos pobres no jardim da Quinta dos Chãos, colocada diante do portal brasonado da casa, junto dos muros do jardim, onde permaneceu até Janeiro de 2005. Atualmente desconhece-se o seu paradeiro.

 

Última localização da tampa sepulcral


 E por último, a curiosa relação de Santo Isidoro com Ammaia (talvez por mero acaso) de uma aldeia que lhe fica a norte e relativamente perto, e que se chama precisamente Marvão...


 Para mais informação sobre Paço d'Ilhas e Quinta dos Chãos, ver os blogs da Casa:

Ericeira de Ontem e de Hoje - Foral de 1229

Memoriando - Torre de Argolim, Paço d'Ilhas

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Ammaia, a Hermínea da Legio V Alaudae


 "Legio quinta Alaudae ou Legio V Alaudae (Quinta legião das Cotovias), conhecida também como Legio V Gallica, foi uma legião do exército imperial romano criada originalmente em 52 a.C. pelo general romano Júlio César (ditador entre 49 e 44 a.C.) constituída principalmente por soldados originários da Hispânia e soldados mercenários arménios. O seu emblema era um elefante, conquistado em 46 a.C. por bravura contra uma carga de elefantes de guerra na Batalha de Tapso."

 


(ver introdução a este artigo em Bibliotecas "proibidas")

 

 Em 25 a.C. o imperador Otávio Augusto ordena a fundação de Emerita Augusta (Mérida) como colónia romana para servir de local de aposentação para os soldados veteranos ("emeritos") das legiões V Alaudae e X Gemina. Ao mesmo tempo é mandado criar um acampamento militar perto da actual Marvão com a finalidade de estabelecer um posto intermédio para as legiões. Nele ficaram acantonados grande parte dos soldados arménios da Legio V Alaudae. A esse acampamento deram o nome de Hermínia ou Herménia; a futura Ammaia.

 


 A Arménia ou Hermenia, teve forte influência helenista no passado, tendo herdado o seu nome do deus greco-latino Hermes, o deus dos pastores. Na Hispânia não foram os nativos que designaram os montes Hermínios Maiores (Serra da Estrela) e Hermínios Menores (Serra de Marvão) mas sim os romanos sob a influência dos arménios que descreviam os montes de Hermes como qualquer uma elevação de terreno ou um conjunto de elevações. 

 

  

 A cidade romana de Ammaia floresceu a partir deste acampamento militar do século I a.C. com a integração de romanos, nativos locais, mercenários e, naturalmente, escravos de diversas origens. O peso e a influência dos arménios na região foi de tal forma importante que, entre os séculos III e IV d.C., chegou a receber representantes da recém formada Legio I Armeniaca. Pensa-se que o local onde se situam as ruínas da cidade de Ammaia tenha evoluído no tempo, de Hermínia para Herménia e daí para Armenha.

...a actual, S. Salvador da Aramenha. 

 

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Maruan

 

Ibn Maruán


 ...O Monte de Ammaia, conhecido hoje por Amaia de Ibn Maruán é um monte inexpugnável a leste da cidade Amaia-das-Ruínas, situada sobre o rio Sever (wadi Sabir).

 

É nestes termos que a actual vila de Marvão é identificada no século X, na obra perdida do historiador cordovês Isa ibn Áhmad ar-Rázi, filho do primeiro historiador hispano-árabe Áhmad ibn Muhâmmad ar-Rázi, autor da obra "Crónica do mouro Rasis".

 O trecho em causa vem citado na conhecida compilação cronográfica al-Múqtabas do historiador Ibn Hayyán, também ele cordovez mas do século seguinte. Por sua vez, Isa ar-Rázi deve ter tirado as suas informações de crónicas mais antigas relatando no ínicio do século X as façanhas de Ibn Maruán e sua dinastia.

Ibn Hayyán integrou o citado trecho da obra de Rázi nos anais relativos ao ano 263 da Hégira correspondendo a 876 da era cristã. Naquela altura, diz o cronista, Ibn Maruán e a sua gente teriam povoado Ammaru ( o vale do Tejo) e ter-se-iam instalado (nazalu:, aqa:mu:) naquele "Monte de Amaia...", sendo de considerar aquele ano como sendo o da fundação de Marvão. Talvez sobre os escombros dum castro pré-histórico ou romano-visigótico.

Ruínas da cidade romana de Ammaia

 Monte da Amaia porque a seus pés se estendeu em tempos a cidade de Ammaia dos romanos, nascida possivelmente de um primeiro acampamento militar deste povo invasor, instalado no seio de uma cultura ancestral que, dominada e anulada, acabou esquecida da História, como muitas outras.

Há referências a Medóbriga e aos seus antigos habitantes da região como sendo as tribos pré-romanas denominadas Medos e Kalontes e que teriam o seu assentamento tanto no alto dos "Pequenos Hermínios" como nos vales circundantes. Não se sabe, no entanto, se a suposta Medóbriga seria o castro no monte de Amaia (Marvão) ou se seria a própria Ammaia, anterior à invasão romana.

Choça - ecos da antiguidade pré-romana

Medóbriga dos Kalontes, Ammaia dos romanos, Maruán dos muwallad... Seja como fôr ela é a Marvão dos nossos dias, amiga, acolhedora, cheia de encanto e beleza.

 

sábado, 7 de junho de 2025

Benvindos


 

 Marvão por tão lindo que és
sentinela de Aramenha
tens Portugal a teus pés
e a abrir-te os braços Espanha

 

Benvindos ao "Marvão, ninho de águias", um blogue dedicado à tradição, História, património, recantos secretos e belezas naturais da região de Marvão.

Vila raiana com panoramas estonteantes e magnífica vista para Espanha, costuma-se dizer que das suas muralhas se pode ver o voo das águias, não de baixo como seria normal, mas de cima.

Segundo reza a História oficial, foi fundada pelos árabes e conquistada pelos cristãos. Tem no entanto origens na pré-história, como testemunham os vestígios arqueológicos espalhados pela região e uma forte presença romana como no caso da cidade de Ammaia que jaz a seus pés na povoação de São Salvador da Aramenha. Acompanhe-nos e descubra por si esta jóia do norte Alentejano.

Participe com as suas sugestões e comentários, ajude a divulgar.