domingo, 5 de julho de 2026

Estranhas ligações

 

Inscrição funerária de Caius Iulius Terentianus, Iulia Maxuma e Terencia de Ammaia

 Inscrição funerária de três indivíduos, que, pelos nomes, não parecem ter uma relação familiar direta (embora não seja de excluir a existência de laços matrimoniais). "(Consagrado) aos deuses manes de Caio Júlio Terenciano, filho de Caio, de 32 anos, inscrito na tribo Galéria e de Júlia Máxima, filha de Sexto, de 20 anos e de Terência, filha de Lúcio natural da Ammaia".


A onomástica é tipicamente latina, sobretudo na forma de identificação dos indivíduos, refletindo uma profunda romanidade e adesão à tradição latina. Todos os nomes são frequentes na Península Ibérica, em particular na área geográfica de Felicitas Iulia Olisipo, destacando-se o nomen Iulius e os cognomina Terentianus/ -a e Maxuma (ambos indígenas), todos eles comuns, sobretudo na zona oeste do município olisiponense. O cognomen Ammaia, por seu lado, parece ser habitualmente utilizado como nomen e associado a cognomina hispânicos.


A inscrição utiliza puncti distinguenti (triangulares de vértice apontado para o lado direito e vírgulas) a separar todas as palavras. As letras são de tipo Capital quadrada, ainda que os "V" sejam gravados com uma das hastes a 45 graus e outra completamente vertical. Pela onomástica, a fórmula de consagração aos deuses manes, a utilização do dativo e a indicação da idade, poderá datar-se esta inscrição de meados ou finais do século II d.C..

Leitura:

 DIS MANIBVS / C(aii) · IVLI · C(aii) · F(ilii) · GAL(eria tribu) . TERENTIA / NI · ANNO(rum) XXXII (duo et triginta) · ET / IVLIAE SEX(ti) · F(iliae) · MAXUM¯AE AN(norum) (triângulo) XX (viginti) / ET · TERENTIAE · L(ucii) · F(iliae) · AMM¯AIIAE

Tradução:

 (Consagrado) aos deuses manes de Caio Júlio Terenciano, filho de Caio, de 32 anos, inscrito na tribo Galéria e de Júlia Máxima, filha de Sexto, de 20 anos e de Terência, filha de Lúcio, natural da Ammaia.

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Isto nada teria de misterioso se a lápide tivesse sido descoberta na cidade romana de Ammaia localizada em São Salvador de Aramenha, Marvão, distrito de Portalegre. Mas... 

...por estranho que pareça surge como tampa de monumento funerário encontrada em data incerta no século XVII, enterrada na mata entre Paço d'Ilhas e a Quinta dos Chãos, tendo sido depois incorporada no altar do Divino Espírito Santo na igreja matriz de Santo Isidoro (Ericeira).

Em 1861, é pela primeira vez referida a sua utilização como tampa de mesa dos pobres no jardim da Quinta dos Chãos, colocada diante do portal brasonado da casa, junto dos muros do jardim, onde permaneceu até Janeiro de 2005. Atualmente desconhece-se o seu paradeiro.

 

Última localização da tampa sepulcral


 E por último, a curiosa relação de Santo Isidoro com Ammaia (talvez por mero acaso) de uma aldeia que lhe fica a norte e relativamente perto, e que se chama precisamente Marvão...


 Para mais informação sobre Paço d'Ilhas e Quinta dos Chãos, ver os blogs da Casa:

Ericeira de Ontem e de Hoje - Foral de 1229

Memoriando - Torre de Argolim, Paço d'Ilhas

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Ammaia, a Hermínea da Legio V Alaudae


 "Legio quinta Alaudae ou Legio V Alaudae (Quinta legião das Cotovias), conhecida também como Legio V Gallica, foi uma legião do exército imperial romano criada originalmente em 52 a.C. pelo general romano Júlio César (ditador entre 49 e 44 a.C.) constituída principalmente por soldados originários da Hispânia e soldados mercenários arménios. O seu emblema era um elefante, conquistado em 46 a.C. por bravura contra uma carga de elefantes de guerra na Batalha de Tapso."

 


(ver introdução a este artigo em Bibliotecas "proibidas")

 

 Em 25 a.C. o imperador Otávio Augusto ordena a fundação de Emerita Augusta (Mérida) como colónia romana para servir de local de aposentação para os soldados veteranos ("emeritos") das legiões V Alaudae e X Gemina. Ao mesmo tempo é mandado criar um acampamento militar perto da actual Marvão com a finalidade de estabelecer um posto intermédio para as legiões. Nele ficaram acantonados grande parte dos soldados arménios da Legio V Alaudae. A esse acampamento deram o nome de Hermínia ou Herménia; a futura Ammaia.

 


 A Arménia ou Hermenia, teve forte influência helenista no passado, tendo herdado o seu nome do deus greco-latino Hermes, o deus dos pastores. Na Hispânia não foram os nativos que designaram os montes Hermínios Maiores (Serra da Estrela) e Hermínios Menores (Serra de Marvão) mas sim os romanos sob a influência dos arménios que descreviam os montes de Hermes como qualquer uma elevação de terreno ou um conjunto de elevações. 

 

  

 A cidade romana de Ammaia floresceu a partir deste acampamento militar do século I a.C. com a integração de romanos, nativos locais, mercenários e, naturalmente, escravos de diversas origens. O peso e a influência dos arménios na região foi de tal forma importante que, entre os séculos III e IV d.C., chegou a receber representantes da recém formada Legio I Armeniaca. Pensa-se que o local onde se situam as ruínas da cidade de Ammaia tenha evoluído no tempo, de Hermínia para Herménia e daí para Armenha.

...a actual, S. Salvador da Aramenha. 

 

terça-feira, 12 de agosto de 2025

Maruan

 

Ibn Maruán


 ...O Monte de Ammaia, conhecido hoje por Amaia de Ibn Maruán é um monte inexpugnável a leste da cidade Amaia-das-Ruínas, situada sobre o rio Sever (wadi Sabir).

 

É nestes termos que a actual vila de Marvão é identificada no século X, na obra perdida do historiador cordovês Isa ibn Áhmad ar-Rázi, filho do primeiro historiador hispano-árabe Áhmad ibn Muhâmmad ar-Rázi, autor da obra "Crónica do mouro Rasis".

 O trecho em causa vem citado na conhecida compilação cronográfica al-Múqtabas do historiador Ibn Hayyán, também ele cordovez mas do século seguinte. Por sua vez, Isa ar-Rázi deve ter tirado as suas informações de crónicas mais antigas relatando no ínicio do século X as façanhas de Ibn Maruán e sua dinastia.

Ibn Hayyán integrou o citado trecho da obra de Rázi nos anais relativos ao ano 263 da Hégira correspondendo a 876 da era cristã. Naquela altura, diz o cronista, Ibn Maruán e a sua gente teriam povoado Ammaru ( o vale do Tejo) e ter-se-iam instalado (nazalu:, aqa:mu:) naquele "Monte de Amaia...", sendo de considerar aquele ano como sendo o da fundação de Marvão. Talvez sobre os escombros dum castro pré-histórico ou romano-visigótico.

Ruínas da cidade romana de Ammaia

 Monte da Amaia porque a seus pés se estendeu em tempos a cidade de Ammaia dos romanos, nascida possivelmente de um primeiro acampamento militar deste povo invasor, instalado no seio de uma cultura ancestral que, dominada e anulada, acabou esquecida da História, como muitas outras.

Há referências a Medóbriga e aos seus antigos habitantes da região como sendo as tribos pré-romanas denominadas Medos e Kalontes e que teriam o seu assentamento tanto no alto dos "Pequenos Hermínios" como nos vales circundamtes. Não se sabe, no entanto, se a suposta Medóbriga seria o castro no monte de Amaia (Marvão) ou se seria a própria Ammaia, anterior à invasão romana.

Choça - ecos da antiguidade pré-romana

Medóbriga dos Kalontes, Ammaia dos romanos, Maruán dos muwallad... Seja como fôr ela é a Marvão dos nossos dias, amiga, acolhedora, cheia de encanto e beleza.

 

sábado, 7 de junho de 2025

Benvindos


 

 Marvão por tão lindo que és
sentinela de Aramenha
tens Portugal a teus pés
e a abrir-te os braços Espanha

 

Benvindos ao "Marvão, ninho de águias", um blogue dedicado à tradição, História, património, recantos secretos e belezas naturais da região de Marvão.

Vila raiana com panoramas estonteantes e magnífica vista para Espanha, costuma-se dizer que das suas muralhas se pode ver o voo das águias, não de baixo como seria normal, mas de cima.

Segundo reza a História oficial, foi fundada pelos árabes e conquistada pelos cristãos. Tem no entanto origens na pré-história, como testemunham os vestígios arqueológicos espalhados pela região e uma forte presença romana como no caso da cidade de Ammaia que jaz a seus pés na povoação de São Salvador da Aramenha. Acompanhe-nos e descubra por si esta jóia do norte Alentejano.

Participe com as suas sugestões e comentários, ajude a divulgar.